Uma Noite de 12 Anos



Falar sobre o mais novo filme do premiado diretor uruguaio Álvaro Brechner, escolhido para representar o Uruguai na disputa pelo Oscar de 2019, é falar de quem sofreu com a opressão de regimes ditatoriais. Isso é preciso, para que os mesmos erros não sejam repetidos. Só por este motivo, esse filme merece ser assistido. Mas o contexto histórico é apenas uma das diversas razões pelas quais o filme tem muitos méritos.
Baseado em acontecimentos da ditadura militar no Uruguai, em 1973, um deles é a prisão do trio de militantes do grupo de guerrilheiros Tupamaros: Pepe Mujica (Antonio de la Torre), Mauricio Rosencof (Chino Darín) e Eleuterio Fernández Huidobro (Alfonso Tort),  grupo de resistência que lutava pela democratização do país e contra o regime ditatorial que lá estava instaurado.
A prisão dos três é uma metáfora sobre a vida, os 12 anos em que a ditadura durou e não deixou a democracia vir à tona. Durante o tempo em que eles tiveram que sobreviver. Além da prisão, os três enfrentaram torturas e um tratamento desumano, isolados cada um em uma cela, com pouquíssima comida, água e nenhuma luz do Sol, sem praticamente nenhum contato com o mundo exterior, com seus cuidados básicos de higiene negados, a ponto de um médico legista ter dito que seria menos desumano se eles fossem fuzilados.

O filme não se prende em dar detalhes sobre o contexto histórico ou o que causou aqueles doze anos de confinamento. As poucas informações do passado dos personagens são mostradas através de flashbacks mostrados no decorrer do filme. Poucos momentos permitiam que eles lembrassem de que eram seres humanos, esses momentos tinham uma forte carga dramática. Rosencof e Ñato conviviam com o dilema de suas filhas crescerem longe deles, Rosencof teve de lidar com o choque de ver seu pai com Alzheimer, em uma das cenas mais emocionantes do filme. Mujica, tinha de lidar com a paranoia típica de quem está isolado do mundo e sobreviver aos fantasmas em sua mente, querendo cessar seus pensamentos.
Os momentos de comunicação, eram raros, e quando acontecia, tinham um caráter simbólico, como falar era proibido, Ñato e Rosencof começaram a se comunicar por meio de batidas na parede. O lado poético de Rosencof lhe rendeu uma amizade involuntária com alguns militares.
As cenas de Pepe Mujica tinham momentos de resistência pela existência, em uma cena, ele começa a fazer um escândalo durante um ato cívico dentro do pátio da prisão onde está após guardas terem roubado pertences levados para ele por sua mãe, ele mostra o desespero para parar de pensar o que, para ele, era um tormento.
Para os três, qualquer coisa servia como tábua de salvação para se manterem vivos e humanizado, uma página de um jornal antigo, um programa de rádio ou um grito abafado de gol serviam como sinais de vida.
Apesar da história se passar no Uruguai e há mais de 30 anos, ela serve de grande alerta para a população brasileira. Uma Noite de 12 Anos é um lembrete de que erros históricos não podem ser repetidos e é um convite para lembrarmos de que mais do que existir, devemos viver e resistir à barbárie e a discursos que flertam com o totalitarismo obtuso.

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